.: sortilégio amoroso

sempre achei que moça abandonada
virava bruxa.
praguejava dor de barriga, todo sábado,
e o namorado padecia,
sem encontrar substituta.
durava a maldição
até aquela terceira semana
em que todo mundo a si mesmo engana
e já pensa no que fez
com os olhos olhando o chão.

eis que chega o tempo do perdão
da sensatez, com conversa aberta.
é a hora e a vez da mandinga:
havendo o reencontro
a volta é certa.



Escrito por A. às 11:48
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.: ato de contrição


                                             

                                                         Villa Lobos - Valsa da Dor

como dormir
nesta noite imensa
em que trazes no peito
o segredo lacinante
como esquecer
o lapso irredimível
que por tua força
ou omissão
fez-se ou não se fará nunca
e a ti restou
o tormento inadiável
esta fogueira no peito,
o remorso?

como confessar
o mal feito
o bem negado
como calar
a verdade latejante
que ameaça saltar à voz
e deixar nu
à vista de todos
o lado que trazemos oculto
por sob capuzes e sombras?

como redimir-se
quando já não é possível
a outra chance
como disfarçar
o desejo sufocante
de nada ser ainda
e de novo e acertado
fazer o que te cabia
não fazer o que nem o infante
faria?

como explicar
a falta do intento
o peito contrito
como dizer agora do amor?
e desejar
injúrias, torturas,
o mais cruento
padecer físico
que se saber
imperdoável
como a si próprio
perdoar?

a noite cái como um peso
sobre os ombros
o silêncio
é imenso e se deseja
uma voz qualquer que diga
ao menos
o que sequer se quer ouvir.
que por tua máxima culpa
carrregarás a noite e seu peso
dentro do peito
até que aurora
não venha mais.



Escrito por A. às 11:03
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Alyuska Lins, uma certa mocinha de recife.

repleta de jazz, drummond, kundera, coltrane, nietzsche, tchaikovsky, paisagens, lispector, adélia, miguel, lisa simpson, violinos, beatles, guyton, leminski, cinema francês, luiz, tango, kafka, chopin, ardis, surrealismo, silogismos, paixões, niilismos, Deus, parênteses, entrelinhas, rios, ruas, los hermanos, zéfiros, saramago, billie holiday, olinda, hai cai, relativismos, modiglianis, cecília, balalaicas, chuva, strauss, brinquedos, passarinhos, monolitos, zemeckis, eça, metáforas, orvalhos, nuanças, sorrisos, sophia, cachorros, didactismos, jardins, pactos, palavras, voz.


.: abertura de conta :.

andei um pouco ausente nestes mares sem deuses nesta vida, a internet sem fins construtivos, em tempo de perder o fenômeno blogs e outras mumunhas mais do gênero. volto um tanto quanto surpresa e acho que aquela velha máxima do não fale de boca cheia nem de mente vazia nunca foi tão esnobada, afinal nem todo inútil deve ser prontamente descartado. ele pode antes ser lido.

só que em meio a um grito tão vasto chega a ser tentador e até confortável balbuciar alguns poucos despautérios, ainda que só a mim convençam. leminski chegou a comentar, em cartas, a idade com que morreria, sugerindo fortuito uma causa. era um impressionista até post-mortem, já que profeta. também disse que a vida hoje em dia era crônica. no sentido mais amplo da palavra, acertara mais uma vez? segue, pois, minha bagatela.


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