.: toda feiúra será perdoada

                                                                                  

A festa já havia começado, quando ele chegou. Os amigos haviam combinado às dez em ponto, mas ele dera meia hora de atraso para que se criasse a já comum expectativa em torno de sua vinda. Ele viria ou não afinal? - pensariam.
E a festa estava boa. Coltrane rolando, velhos amigos reunidos, garotas bonitas conversando e rindo, fingindo não notarem os rapazes que também riam e conversavam. Para o grupo mais descontraído do local, ele contava a última do papagaio poliglota e se sentia orgulhoso quando ouvia à sua volta a unânime gargalhada dos amigos por causa de suas histórias. Definitivamente ele sabia contar piadas. Tinha o poder de se transformar em karatê kid naquela pose histórica de águia perneta e logo depois se entregar a jetées, fingindo-se um bailarino famoso. E quando era a história do louco, assanhava os próprios cabelos e fazia o olhar típico que ninguém agüentava olhar por dois segundos sem rir. Era o que sabia fazer. Alguns, em festa, pedem o microfone e cantam “sozinho” do Caetano; outros, põem-se à janela e fazem o tipo deslocado. Alguns, entretanto, são populares. É o jeito que encontram de divertir os outros e chamar atenção, embora nem sempre esta última seja razão para a primeira.
O dia seguinte ao da festa era uma sexta, no entanto, a maioria das pessoas iria trabalhar, e não era nem meia-noite quando ele percebeu que quase todos que conhecia já haviam ido embora. Até pensou em ir também, mas, ao olhar em volta, um belo par de olhos azuis próximo ao bar acabou dando-lhe uma boa razão para ficar. E além dos olhos, o corpo. Típico daquelas grandes paragens que todo homem sonha visitar um dia. Ele resolveu então se aproximar e começou a atravessar a sala nessa intenção. Antes, parou um garçom, trocou o copo já vazio por outro com o qual pudesse brindar a possibilidade de estar diante de uma daquelas grandes noites. Desviou de um casal que dançava, disse  “depois”  a um conhecido que o interceptou no caminho para perguntar-lhe algo, desviou de uma garota baixinha que dançava só, mas ela foi para o mesmo lado. Desviou novamente, ela também. Sugeriu outros desvios, mas ela em todas as tentativas  ia também para o mesmo lado. Ele, então, de sobrancelhas contraídas, visivelmente contrariado, já pensando em afastá-la de seu caminho com um dos braços, notou de repente a bela de olhos azuis passar ao seu lado. Ficou absorto, encantado, já entregue de paixão até que ouviu sem querer ela comentar com as amigas algo sobre preferir os coroas, porque eram mais carentes e pagavam à vista. Ele a acompanhou com os olhos,  incrédulo, até vê-la entrar no toalete... Balançou a cabeça, mal podia acreditar. Pôs-se, então, a fazer uma rápida reflexão sobre a inexistência de mulheres de verdade no mundo e já pensava em ir embora quando viu à sua frente a garota baixinha que há alguns instantes ele,  impaciente, quase empurrara. E ao olhar para ela, pensava algo como "se não é piranha, é isto", quando a moça de repente falou:
- Há alguns minutos  pensei que você estivesse tentando dançar comigo... - e sorriu. Um sorriso até bonito. Um sorriso diferente.
E ele, talvez, até estivesse prestes a falar-lhe alguma frase desaforada, mas achou o comentário tão sutil e bem-humorado que sorriu também.
- E logo agora, que eu já estava até pegando o passo... tudo bem que você parecia meio bobo, dançando de um lado para outro como quem tenta desviar de uma garota baixinha que se põe sem querer em seu caminho, mas tudo bem... afinal o que pode uma garota baixinha esperar de uma festa com tantas garotas bonitas e tantos olhos azuis,  não é mesmo?
A essa altura ele já estava com a boca visivelmente aberta e os olhos espantados,  como de quem pensa "ela fala".
- O que foi? - perguntou ela a sorrir... com o riso novamente bonito, aquele riso diferente que ele nunca tinha visto - Não sabia que eu falava?
Os olhos dele chegaram, então, ao limite máximo de abertura da órbita.
- Meu consolo, entretanto, para festas com essas, é acreditar em Stendhal: mulheres muitíssimo belas surpreendem menos no dia seguinte... - ela acrescentou.
- Stendhal?  Bom, citando-o agora você certamente já está me surpreendendo o suficiente para que haja um dia seguinte... Gosta de ler, ao que vejo.
- Só nas noites sem fogueiras... - falou ela, sorrindo.
Definitivamente aquela garota não era comum. A festa ainda rolava e ele foi se deixando ficar, ouvindo algumas histórias engraçadas, divertindo-se com o modo engraçado que ela contava e, de repente, quando percebeu, já estavam dançando. Ao ritmo da música e das palavras.
- Quer beber alguma coisa? - ele sugeriu.
- Só se a bebida for apenas um pretexto.
Uma hora de conversa e ela já se tornara uma outra mulher. Não aquela que se impusera em seu caminho e causara-lhe tanto enfado que nem para seu rosto ele havia olhado. O rosto dela agora tinha olhos. Olhos expressivos e sobrancelhas marcantes. E dele despontavam um nariz de sutil atrevimento e uma boca que escondia um sorriso diferente. Já não parecia tão baixa, é verdade. E pronunciava o nome dele sempre como se fosse algo inédito. Não havia nela nada falso. O  rosto sem maquiagem revelava uma mulher ao natural. Ele podia até imaginar como ela ficaria bem de batom escuro e os olhos delineados. Imaginou um colar de brilhantes naquele colo alvo, tão nu de acessórios. E ela, como se adivinhasse seus pensamentos, até chegou a comentar a razão de sua opção pelo mais simples:
- Uma mulher bem vestida é aquela em cuja roupa ninguém repara - ela ouvira certa vez.
E ele ao ouvi-la dizer isso, sorriu de um jeito diferente. Sorriram iguais, pela primeira vez. Ele, profundamente encantado.
E enquanto ela falava, ele não pôde deixar de constatar que, sem querer, estava diante da mulher mais bela daquela festa. Ela  sim, era a que melhor estava vestida para a ocasião e a que mais continha brilhantes em si. Apesar do colo nu.



Escrito por A. às 23:30
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Alyuska Lins, uma certa mocinha de recife.

repleta de jazz, drummond, kundera, coltrane, nietzsche, tchaikovsky, paisagens, lispector, adélia, miguel, lisa simpson, violinos, beatles, guyton, leminski, cinema francês, luiz, tango, kafka, chopin, ardis, surrealismo, silogismos, paixões, niilismos, Deus, parênteses, entrelinhas, rios, ruas, los hermanos, zéfiros, saramago, billie holiday, olinda, hai cai, relativismos, modiglianis, cecília, balalaicas, chuva, strauss, brinquedos, passarinhos, monolitos, zemeckis, eça, metáforas, orvalhos, nuanças, sorrisos, sophia, cachorros, didactismos, jardins, pactos, palavras, voz.


.: abertura de conta :.

andei um pouco ausente nestes mares sem deuses nesta vida, a internet sem fins construtivos, em tempo de perder o fenômeno blogs e outras mumunhas mais do gênero. volto um tanto quanto surpresa e acho que aquela velha máxima do não fale de boca cheia nem de mente vazia nunca foi tão esnobada, afinal nem todo inútil deve ser prontamente descartado. ele pode antes ser lido.

só que em meio a um grito tão vasto chega a ser tentador e até confortável balbuciar alguns poucos despautérios, ainda que só a mim convençam. leminski chegou a comentar, em cartas, a idade com que morreria, sugerindo fortuito uma causa. era um impressionista até post-mortem, já que profeta. também disse que a vida hoje em dia era crônica. no sentido mais amplo da palavra, acertara mais uma vez? segue, pois, minha bagatela.


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