a valsa

                                                                                   [ a Camile Claudel ]

Mal se crê
Na valsa que surge
Do que sem forma 
Fadado estava à pedra
Por toda eternidade
Como pode
Da lasca bruta
Surgir um ritmo
Um vento leve
Sem qualquer gravidade?

Com o próprio desejo
Lapida o fragmento
Antes segredo 
Por hora explícito 
No talhe solto
Do flamejante vestido
Um enlace impossível
De dois corpos vivos
Mineral apenas

Pela vida inteira
O que a sorte negara
Por fim recriara
Com picareta e embate
O encontro inequívoco 
O abraço apaziguado
Na delicadeza improvável 
De uma pedra que se parte.



Escrito por A. às 14:54
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patente

já não escrevo de amor
agora pratico
logro de usá-lo
além do verbo transitivo
o amor agora
acorda ao lado
toma café às seis
veste as camisas que no armário
separo por cor

do que se fez esperar
por hora se redime
somente pelo que é e traz
o deleite que oferece
demorara se fazendo 
para que pronto
me ofertasse

procuro agora outra teoria
para debruçar sobre 
escrever em torno
sondar através 
botânica talvez

dispensando argumentos
subterfúrgios
alegorias
o amor sobretudo é.



Escrito por A. às 20:10
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.: picasso

atiraram ao chão 
tua frágil pintura
imendei uma a uma
dela as partes
sem lógica seguir 
quase nenhuma
reenventei a figura
lamentando o desastre
e era justo essa
tua arte.



Escrito por A. às 18:49
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.: arrepio

todos os pêlos
tiram o chapéu
pro frio.



Escrito por A. às 16:53
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ao menos o mito
faço bem feito
sou ouro pra tolo nenhum
botar defeito.



Escrito por A. às 16:52
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.: a peleja

porque já não se escreve como antes as folhas caíam no outono
natural e sem esforço
se olhares bem ao fim de cada verso
queda exausta e sedenta a poesia
porque hoje a palavra é labuta
cuidado próprio de procurá-la em terra cada dia mais erma
mais longuínqua
cismando no caminho que talvez não se a encontre mais
volta-se muitas vezes de mãos vazias

não se sabe se o fenômeno é da idade, da cidade, da escassa melodia
a palavra eventualmente ocorre mas é fugidia
por vezes miragem.
persigo-a por quanto fui condicionada
que não há sol maior que ver de perto poesia germinando
em meio aos cactus e barro em que por dias a busco
mas que nenhum pense ser brincadeira arar campo e plantar sem sementes
em terra sem abrigo algum
e esperar que brote

por vezes compreendo que cultivar poesia assim
é esperar milagre
melhor sentar na sombra e vigiar de tempos em tempos
se não cái logo do céu.
mas assevero que não serve poesia alguma que não seja impossível
e assim mesmo se faça.
suponho portanto que busco a palavra da mais difícil maneira
da menos cabida forma
do jeito mais impreciso cultivo rimas e algum ritmo.
não me sai é previsível quase nada que se preste
pouco muito pouco se cata de bom em meio à poeira e folhas ressecadas
vem de tudo

mas escrever é também o litígio da escolha
como não se pode vencer nunca a palavra
é dom desvendar a sua arqueologia
até que toda poeira se vá retirando de sílabas e frases desfeitas.
no fim é um labirinto
um poço sem fundo
um sol quase posto querer escrever

com o tempo, ecoa por dentro do peito
do pensamento exausto
se escrever é mesmo tudo o que se quer
melhor não seria descansar na rede,
cantarolar na esquina
esperar outro trem, se é que passa.
é quando a palavra está quase à tona que ela desafia em vão destino e brio
é hora então de rir como quem blefasse
ainda aguento noventa e duas noites no deserto a pão e água
mas não volto sem poesia.
quando se acorda na manhã seguinte
o raio de sol ainda frio a iluminar sonolento braço e fronte
mal se enxerga o que se vê, se limpa a vista
a poesia dorme ainda ao lado estendida.
fora deixada no meio da noite como dádiva, como trégua,
às mil léguas percorridas

quando quer
a palavra se dá por vencida.



Escrito por A. às 16:05
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.: retaliação

água mole em pedra dura
tanto bate
que leva.



Escrito por A. às 10:07
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cão
enquanto late
não morde.



Escrito por A. às 10:06
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de onde estou avisto uma cidade entorpecida pela noite, uma ou outra luz se alterna nas janelas dos edifícios, o que tanto as pessoas procuram nos cômodos, que fotografias de 99 buscam no armário, de que segredos se despem no lixo da cozinha?
uma luz se apaga e nenhuma se acende adiante, volta a acender a que se via apagada, pessoas esquecem o que buscam.
a tv lança sobre as paredes suas luzes gritantes, lembra um caldeirão de bruxa cozendo sortilégios, hereges incendiando em fogueiras de comercias o que havia de melhor em seu espírito.
mas a que tanto se assiste, afinal, se a vida é lá fora?



Escrito por A. às 10:04
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.: teste vocacional

entre nada ser
e tudo ser
melhor nadar.



Escrito por A. às 20:09
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.: lapsus

Etta James sacramenta

não me avisaram
não disseram que viria
eu que dava por findada a busca
mal vi
quando o amor chegou

não vi seu aceno
nem ouvi seus guisos
não avistei seu esplendor ao longe
nem de perto, quando sorriu
segui como quem ainda o encontraria adiante
e cuidando de atentar bem aos modos
e reparar minhas vestes e calçados e por fim cabelos
devo ter estado cabisbaixa demais
a tempo de não olhar nos olhos do amor quando este chegou

eu que ensaiava frases e tom exato de voz
que mil poesias insuspeitáveis sem lapsos trazia
a usar em horas em que fosse determinante
mostrar ao amor o amor infinito que em mim continha
não soube o que dizer, não soube sequer que era a hora
desperdicei em silêncios o momento que como é sabido
nunca mais haveria
esteve bem ali à minha frente e eu como quem mais adiante avistasse
nem vi que o amor afinal e a tempo me alcançara

que eu saiba todavia que o amor já se foi e não voltará sequer, não sei
todos os dias é como se ainda viesse
levanto-me às manhãs e com esmero e minúncia
cuido de me compor tal como em sonhos quisesse que o amor me visse
ignoro que inesperado e sob à luz do céu apenas
o amor me olhou, perguntou como me chamava e a que vinha

de cabelos soltos e olhar vibrante
de coração disposto a tudo o amor me encontrou
e talvez se deteve me vendo assim
mas não adivinhando sob a voz mansa
a mulher que nela se ocultava
e eu que nada sabia não lhe dizendo em segredo
foi-se inesperado o amor

o amor veio portanto e não compreendera
e eu que o procurava não dei abrigo ao que enfim chegara até que
compreendesse algures
as mãos entre as minhas, portanto, o olhar inesquecível, o abraço ofegante sob a escada fatídica
o beijo à margem do Siena, do Neusiedl, da Fontana di Trevi, 
a dança na chuva nunca haverá, é preciso que algum dia
isto seja aceito

o amor talvez nem saiba
que era eu a quem fadado estava a amar
passou por mim algo intrigado
deteve o passo, sorriu por algo
mas não vendo motivo, sinal ou cuidado que o detivesse
seguiu caminho
sem rastros ou insignías

sou desde então
a moça fatídica que, por exausta,
dormiu à ópera
e não viu quando La sonnambula de Bellini
iniciou e chegou inevitável ao fim
permaneço ainda
sob as sombras à platéia
aguardando a ária sublime
que tornará meus olhos rutilantes à escuridão

mas como quem começasse a intuir o engano
como quem desconfiasse do logro irreparável
começa já a inquietar-me a espera
o não chegar nunca.

meu olhar fitando pois o chão
tenta em vão comover o destino
mas é inútil.

o destino é também de pedra.



Escrito por A. às 16:19
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.: inóculos

a paixão quando veio
será foi pelo riso
será foi pela pele
quando batem à porta
e não é ninguém
será a paixão criando o ensejo
entrando pelas frestas
voltando conosco ao trabalho, à leitura
ao cortar de cuentros e cebolinhas?

é a paixão então que sussura
os mil pensamentos
os outros sentidos
das frases refeitas
o riso que retorna
com mil dentes cintilantes
com a boca entreaberta
que sorri como a dizer
não me decifra
que o bom do desejo é arder;
quando os labios secam
e a língua os retifica
é a razão aspergindo sua sede dentro de nós?

por onde entrara a paixão
que meus olhos eram cerrados
e o coração recolhido;
pelo lábio lacônico
que se abrira ao bocejo
entrou a paixão
feito música aos ouvidos?

feito uma fuga, um lapso, um pressentimento
a paixão nos possui lento com seu arrepio
a percorrer o corpo
que de nós desterra
e desabriga pudores
e enlouquece as horas
pela carne afora
inaugura o cio.
a paixão quando chega
pra onde vai o brio, a calma, o credo
o que é feito de nós
quando a paixão nos arresta?

quando a paixão nos arrasta
que faz dos horários, dos segredos,
dos intentos, dos embargos,
dos engodos, da loucura, do perfume, do juízo,
o que é feito da rotina?
a paixão quando queima e incendeia o roteiro
e a vida improvisa
e ignora a ruína de uma imagem a zelar
a paixão sente muito?

a razão quando fecha as portas
a paixão abre todas as janelas.
de onde se olhe, a hora que seja
é o mar que se avista,
é o céu.
por onde a paixão entra
quem saberá
quem sabe quando desvanecerá.
somos apenas espólios
que a paixão aliena,
e em que se abriga,
e de que se alimenta, e de que se farta
e deixa sempre a porta entreaberta,
quando sai.



Escrito por A. às 21:52
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me dizes com quem andas
que eu
sossego.



Escrito por A. às 21:06
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.: o portento

Nasceu e nesse dia não houve um só terremoto, trombetas nem sinos tocaram, nenhum céu se fechou. Sua mãe disse que quando ele veio ao mundo foi como se houvesse no ar um grande alívio. Ao menos para ela. Mas isso não o desanimou. Cresceu com certezas. Nascera para algo grande. Não importava o quanto discreta e comum a tal vida fosse, em algum momento fatídico sua identidade seria revelada e todos fariam oh e se comoveriam com o tempo que permaneceram sem saber. A cada passagem de ano a questão não era como dos outros mortais, cor da camisa, de onde se veio, para onde se vai, champangne barato ou não pros convidados. A questão para ele afinal era a espera, um ano a menos, o dia enfim que se aproximava, indisfarçável. Mas veio o tempo. O seu olhar conformado de grande homem do mundo deu espaço a uma sobrancelha arqueada, será mesmo. Veio a infância e ninguém admirou sua capacidade de espirrar quando bem quisesse, a sua habilidade de se tornar invisível no quintal todas as tardes, seu jeito com largatixas. Porque todas as crianças do mundo eram iguais a ele. Veio a juventude, poesia pelos cantos, a capacidade de amar mil garotas sem rastros, veio a sensação de que além do horizonte deveria ter. Mas não, não teve. Porque todos os jovens do mundo eram diferentes dele. Vieram pois os anos, não descobriu o código genético sozinho, não formou a fatídica banda, não foi elogiado por Veríssimo pelas colunas do jornalzinho escrito às pressas. Não virou filósofo, não se estabeleceu gênio, constrangiria o Ballets Russes dançando e não há esperanças. Caiu sobre si mesmo incrédulo com a inexistência de poderes especiais, dons miraculosos. Nada havia nele que não houvesse em cada um dos seres com que se deparou e não houve um em que ele, ao tentar causar encantamento com um cortejo de acrobacias e trejeitos, não houve um que não dissesse, eita também faço isso. Mergulhou finalmente no caldeirão  largo e cinzento das multidões sem méritos e cuidou de não adiantar passos nem destoar da grande marcha até o fim. Pessoas sem rostos, sem nomes, sem finalidades por vezes lhe encaram nas ruas desertas em que caminha e quando o vêem, parece, esboçam nas bocas abertas algum som de reconhecimento. Ele pensa será, suspende o ar por instantes, teima que ainda é tempo e espera a meio passo. Mas é só bocejo.



Escrito por A. às 16:58
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.: fantasma

Na madrugada
O que não és
Se move.



Escrito por A. às 14:31
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Alyuska Lins, uma certa mocinha de recife.

repleta de jazz, drummond, kundera, coltrane, nietzsche, tchaikovsky, paisagens, lispector, adélia, currie, lisa simpson, violinos, beatles, guyton, leminski, cinema francês, luiz, tango, kafka, chopin, ardis, surrealismo, paixões, niilismos, Deus, parênteses, entrelinhas, rios, ruas, cecília,los hermanos, zéfiros, saramago, billie holiday, olinda, hai cai, relativismos, modiglianis, balalaicas, beauvoir, silogismos, chuva, strauss, brinquedos, passarinhos, monolitos, zemeckis, eça, metáforas, orvalhos, nuanças, sorrisos, sophia, cachorros, didactismos, jardins, pactos, palavras, voz e Amor.


.: dos motivos óbvios :.

andei um pouco ausente nestes mares sem deuses nesta vida, a internet sem fins construtivos, em tempo de perder o fenômeno blogs e outras mumunhas mais do gênero. volto um tanto quanto surpresa e acho que aquela velha máxima do não fale de boca cheia nem de mente vazia nunca foi tão esnobada, afinal nem todo inútil deve ser prontamente descartado. ele pode antes ser lido.

só que em meio a um grito tão vasto chega a ser tentador e até confortável balbuciar alguns poucos despautérios, ainda que só a mim convençam. leminski chegou a comentar, em cartas, a idade com que morreria, sugerindo fortuito uma causa. era um impressionista até post-mortem, já que profeta. também disse que a vida hoje em dia era crônica. no sentido mais amplo da palavra, acertara mais uma vez? segue, pois, minha bagatela.


.: dos motivos esconsos :.

por joão cabral de melo neto

tua sedução é menos de mulher do que de casa: pois vem de como é por dentro ou por detrás da fachada. mesmo quando ela possui tua plácida elegância, esse teu reboco claro, riso franco de varandas, uma casa não é nunca só para ser contemplada; melhor: somente por dentro é possível contemplá-la. seduz pelo que é dentro, ou será, quando se abra; pelo que pode ser dentro de suas paredes fechadas; pelo que dentro fizeram com seus vazios, com o nada; pelos espaços de dentro, não pelo que dentro guarda; pelos espaços de dentro: seus recintos, suas áreas, organizando-se dentro em corredores e salas, os quais sugerindo ao homem estâncias aconchegadas, paredes bem revestidas ou recessos bons de cavas, exercem sobre esse homem efeito igual ao que causas: a vontade de corrê-la por dentro, de visitá-la.


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