.: rapunzel

caro rapaz
ou você sobe pelo muro
ou eu pulo, tanto faz.



Escrito por A. às 20:25
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.: história de pescador

nem tudo
que cair na rede
deixe.



Escrito por A. às 20:15
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uma andorinha
só não faz verão
porque não quer.



Escrito por A. às 19:56
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um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisas que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra.

                                                                 por leminski

uma mulher sem um amor
é bem menos extravagante
sorri assim de lado
como se o lábio calado
cantasse bem menos que antes

carrega a leveza do fim
como se preferisse o fardo
um parto um milhão de problemas
ou seus emblemas

coltrane martinis drummond
não me falem em amor
ele é tudo que me falta
não ter, destrói qualquer humor em alta.

                                                                 por A.



Escrito por A. às 19:36
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.: alucinação

 rinaldo

parece impossível
mas hoje vi
a tua imagem
em vez da minha
no espelho.

eu sabia
amar dá  nisso.



Escrito por A. às 11:06
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.: ponderação

                                                            

ando por esses dias um tanto mística.
crendo sem ver na força das coisas
se têm de ser
no desenrolar infalível dos fatos
se é destino
já não duvido da obstinação dos caminhos
das retificações à última hora
creio mesmo que nos assiste um Deus nem sempre fácil
mas legítimo.

a espera deu-me estes ares,
tornei-me uma inacreditável espiritualista.
e ainda que seja risível esta minha auréola crente
a qualquer um que me tenha visto antes,
cepticamente desconcertante,
a calcular probabilidades na teoria do caos,
converti-me nesta otimista irreparável
que conhece hoje de santos e rosários
traz joelhos calejados
e crê que ao final todo bem prevalece.

porque a espera é desoladora.
se ao menos houvesse algo a ser feito
paliar os dias com filas de bancos e taxas de cartório
em lugar do adiamento desmedido,
do silêncio das noites sem notícia
se possível ainda fosse dormir e suportar um outro dia
para novamente nada fazer,
nenhuma minúncia sequer a providenciar
mas acordar tão somente para esperar
aguardar ainda
como se sequer ansiasse o aviso, o prenúncio, a promessa,
disfarçar do destino
o limite em que se encontram vísceras e pensamentos
que toda vontade é dar de ombros, chutar o balde,
também agora não quero mais.

vem todavia, lá pela metade do dia, uma fé que não se explica
e acalenta o espírito,
consola-o, afaga-lhe as idéias e os medos.
põe-me no colo, sussura favores,
suscita o lado bom até então ignorado do que se adia.
como não sei de onde venha e a que se dá o trabalho
de encorajar meus dias
suponho seja Deus esta fé e seja bom,
porque me sustenta, quando ameaço resvalar.
daí a crença, daí os novos ares que assumo.
pode ser só um lado otimista aflorando,
o tempo me tornou mais amável, apenas isso.
mas na dúvida, creio.
é mais alentador.



Escrito por A. às 16:55
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.: quimera

o coração sonhou
sonhou redudante desfecho e inferências,
a trajetória mirabolante.
conjecturou, elaborou, pormenorizou
a convincente história de final feliz
e ponto final.

quarenta noites
de espera e ingenuidade
novecentas e sessenta horas de credo
de risos soltos sem motivo nos semáforos.

chegado o dia
coração desatou num galopar desatinado
mal se continha por dentro do peito
parecia, queria saltá-lo, superá-lo em força,
em controverso prodígio.
a voz cortaria se tentado fosse discorrer sobre algo
sobre a fatalidade dos destinos
sobre o próposito afinal de tudo
sobre a felicidade sobretudo

mas não houve tempo de dizê-lo
não houve um só enredo
nem real nem o circense
era só a madrugada
e uma lua meio crescente.
o coração olhando-a
do alto de sua própria dor insuportável.

coração então desistiu de músculos e veias,
de pareceres favoráveis.
consentiu ignorar hormônios e polaridades elétricas.
coração hoje
é pedra de ladrilhar.



Escrito por A. às 23:57
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São poucas horas
para novamente o sol
e eu me encontro em silêncio
a depurar coisas e desenredos.
Não posso dizer que lapsos de sorriso
não me venham a cada fim de pensamento
em que tudo se dá por uma ou outra maneira
cada vez mais elaborada e improvável,
estou por assim dizer
a meio passo de uma felicidade lacinante.
Assevero o quanto custará tamanho devaneio
deixar-me levar por sonho e arroubos de sorte,
mas não há severidade alguma nem pesar
ao se considerar a loucura a que tudo se resume
e que estou prestes a atrelar aos meus dias.
O que estou é uma pobre alma desatada
ante uma realidade com ares de céu,
nuvens baixas por uma estrada branca e infinita
flores do campo de cores impossíveis de ambos os lados
um amor para andar de mãos dadas, música imperiosa na entrada,
e uma alegria que faz chorar.

O sol há de vir a pouco com respostas e o desenrolar do filme em pausa.
Devo confessar que não é humano esquivar-se da vida,
Com seus fogos e pedras e vales e ilhas.



Escrito por A. às 06:39
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descobri hoje que amargura não é uma espécie de verminose que acomete mulheres que não casam. aquela expressão acre, as vestes pudicas, o olhar subliminar delas é outra coisa.
amargura é uma dor silenciada. um perdão diplomaticamente dado, intragável porém. os hebreus chamam-na planta amarga capaz de estragar e contaminar a massa inteira.
assisti a meus modos tornarem-se caprichosos, ranzinzas. já não me alegravam os lençóis limpos de antes. as pessoas eram enfadonhas. olhava-as com uma das sobrancelhas sempre arqueadas, inesperáveis que são os seres humanos. como quem já não se importa, dispensei simpatias, cultivei quezilas, ampliei minha lista de hostilidades. dei de ombros.
e era só amargura.



Escrito por A. às 19:47
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.: sortilégio amoroso

sempre achei que moça abandonada
virava bruxa.
praguejava dor de barriga, todo sábado,
e o namorado padecia,
sem encontrar substituta.
durava a maldição
até aquela terceira semana
em que todo mundo a si mesmo engana
e já pensa no que fez
com os olhos olhando o chão.

eis que chega o tempo do perdão
da sensatez, com conversa aberta.
é a hora e a vez da mandinga:
havendo o reencontro
a volta é certa.



Escrito por A. às 11:48
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.: ato de contrição


                                             

                                                         Villa Lobos - Valsa da Dor

como dormir
nesta noite imensa
em que trazes no peito
o segredo lacinante
como esquecer
o lapso irredimível
que por tua força
ou omissão
fez-se ou não se fará nunca
e a ti restou
o tormento inadiável
esta fogueira no peito,
o remorso?

como confessar
o mal feito
o bem negado
como calar
a verdade latejante
que ameaça saltar à voz
e deixar nu
à vista de todos
o lado que trazemos oculto
por sob capuzes e sombras?

como redimir-se
quando já não é possível
a outra chance
como disfarçar
o desejo sufocante
de nada ser ainda
e de novo e acertado
fazer o que te cabia
não fazer o que nem o infante
faria?

como explicar
a falta do intento
o peito contrito
como dizer agora do amor?
e desejar
injúrias, torturas,
o mais cruento
padecer físico
que se saber
imperdoável
como a si próprio
perdoar?

a noite cái como um peso
sobre os ombros
o silêncio
é imenso e se deseja
uma voz qualquer que diga
ao menos
o que sequer se quer ouvir.
que por tua máxima culpa
carrregarás a noite e seu peso
dentro do peito
até que aurora
não venha mais.



Escrito por A. às 11:03
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.: mágico de nós

leminski sempre foi em mim
seis taças de vinho.
separa as coisas como deveriam ser
das coisas como são.
depois dele
toda palavra é dúbia
a distância menor é curva
cada laço, cada passo
o verdadeiro cadafalso.

porque quando leminski  faz efeito
as coisas perdem sentido
é alegre e leve o jeito
feito propriamente do dito
tudo feito do nada
nada, antes tudo, agora pó
e por dentro
da garganta da gente
leminski põe e desata um nó.

rir então é urgente
quase sempre, tangente.
súbito, lapso, girândola
a poesia por ele fala,
quase anda
roda, roda,
quase hai cai.

leminski
mágico mago implícito
sempre me trái.



Escrito por A. às 08:40
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saudade
é conter
o que não cabe.



Escrito por A. às 04:05
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eu escrevo como que aposta
isto é o certo
por linhas tortas.

Escrito por A. às 04:02
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.: toda feiúra será perdoada

                                                                                  

A festa já havia começado, quando ele chegou. Os amigos haviam combinado às dez em ponto, mas ele dera meia hora de atraso para que se criasse a já comum expectativa em torno de sua vinda. Ele viria ou não afinal? - pensariam.
E a festa estava boa. Coltrane rolando, velhos amigos reunidos, garotas bonitas conversando e rindo, fingindo não notarem os rapazes que também riam e conversavam. Para o grupo mais descontraído do local, ele contava a última do papagaio poliglota e se sentia orgulhoso quando ouvia à sua volta a unânime gargalhada dos amigos por causa de suas histórias. Definitivamente ele sabia contar piadas. Tinha o poder de se transformar em karatê kid naquela pose histórica de águia perneta e logo depois se entregar a jetées, fingindo-se um bailarino famoso. E quando era a história do louco, assanhava os próprios cabelos e fazia o olhar típico que ninguém agüentava olhar por dois segundos sem rir. Era o que sabia fazer. Alguns, em festa, pedem o microfone e cantam “sozinho” do Caetano; outros, põem-se à janela e fazem o tipo deslocado. Alguns, entretanto, são populares. É o jeito que encontram de divertir os outros e chamar atenção, embora nem sempre esta última seja razão para a primeira.
O dia seguinte ao da festa era uma sexta, no entanto, a maioria das pessoas iria trabalhar, e não era nem meia-noite quando ele percebeu que quase todos que conhecia já haviam ido embora. Até pensou em ir também, mas, ao olhar em volta, um belo par de olhos azuis próximo ao bar acabou dando-lhe uma boa razão para ficar. E além dos olhos, o corpo. Típico daquelas grandes paragens que todo homem sonha visitar um dia. Ele resolveu então se aproximar e começou a atravessar a sala nessa intenção. Antes, parou um garçom, trocou o copo já vazio por outro com o qual pudesse brindar a possibilidade de estar diante de uma daquelas grandes noites. Desviou de um casal que dançava, disse  “depois”  a um conhecido que o interceptou no caminho para perguntar-lhe algo, desviou de uma garota baixinha que dançava só, mas ela foi para o mesmo lado. Desviou novamente, ela também. Sugeriu outros desvios, mas ela em todas as tentativas  ia também para o mesmo lado. Ele, então, de sobrancelhas contraídas, visivelmente contrariado, já pensando em afastá-la de seu caminho com um dos braços, notou de repente a bela de olhos azuis passar ao seu lado. Ficou absorto, encantado, já entregue de paixão até que ouviu sem querer ela comentar com as amigas algo sobre preferir os coroas, porque eram mais carentes e pagavam à vista. Ele a acompanhou com os olhos,  incrédulo, até vê-la entrar no toalete... Balançou a cabeça, mal podia acreditar. Pôs-se, então, a fazer uma rápida reflexão sobre a inexistência de mulheres de verdade no mundo e já pensava em ir embora quando viu à sua frente a garota baixinha que há alguns instantes ele,  impaciente, quase empurrara. E ao olhar para ela, pensava algo como "se não é piranha, é isto", quando a moça de repente falou:
- Há alguns minutos  pensei que você estivesse tentando dançar comigo... - e sorriu. Um sorriso até bonito. Um sorriso diferente.
E ele, talvez, até estivesse prestes a falar-lhe alguma frase desaforada, mas achou o comentário tão sutil e bem-humorado que sorriu também.
- E logo agora, que eu já estava até pegando o passo... tudo bem que você parecia meio bobo, dançando de um lado para outro como quem tenta desviar de uma garota baixinha que se põe sem querer em seu caminho, mas tudo bem... afinal o que pode uma garota baixinha esperar de uma festa com tantas garotas bonitas e tantos olhos azuis,  não é mesmo?
A essa altura ele já estava com a boca visivelmente aberta e os olhos espantados,  como de quem pensa "ela fala".
- O que foi? - perguntou ela a sorrir... com o riso novamente bonito, aquele riso diferente que ele nunca tinha visto - Não sabia que eu falava?
Os olhos dele chegaram, então, ao limite máximo de abertura da órbita.
- Meu consolo, entretanto, para festas com essas, é acreditar em Stendhal: mulheres muitíssimo belas surpreendem menos no dia seguinte... - ela acrescentou.
- Stendhal?  Bom, citando-o agora você certamente já está me surpreendendo o suficiente para que haja um dia seguinte... Gosta de ler, ao que vejo.
- Só nas noites sem fogueiras... - falou ela, sorrindo.
Definitivamente aquela garota não era comum. A festa ainda rolava e ele foi se deixando ficar, ouvindo algumas histórias engraçadas, divertindo-se com o modo engraçado que ela contava e, de repente, quando percebeu, já estavam dançando. Ao ritmo da música e das palavras.
- Quer beber alguma coisa? - ele sugeriu.
- Só se a bebida for apenas um pretexto.
Uma hora de conversa e ela já se tornara uma outra mulher. Não aquela que se impusera em seu caminho e causara-lhe tanto enfado que nem para seu rosto ele havia olhado. O rosto dela agora tinha olhos. Olhos expressivos e sobrancelhas marcantes. E dele despontavam um nariz de sutil atrevimento e uma boca que escondia um sorriso diferente. Já não parecia tão baixa, é verdade. E pronunciava o nome dele sempre como se fosse algo inédito. Não havia nela nada falso. O  rosto sem maquiagem revelava uma mulher ao natural. Ele podia até imaginar como ela ficaria bem de batom escuro e os olhos delineados. Imaginou um colar de brilhantes naquele colo alvo, tão nu de acessórios. E ela, como se adivinhasse seus pensamentos, até chegou a comentar a razão de sua opção pelo mais simples:
- Uma mulher bem vestida é aquela em cuja roupa ninguém repara - ela ouvira certa vez.
E ele ao ouvi-la dizer isso, sorriu de um jeito diferente. Sorriram iguais, pela primeira vez. Ele, profundamente encantado.
E enquanto ela falava, ele não pôde deixar de constatar que, sem querer, estava diante da mulher mais bela daquela festa. Ela  sim, era a que melhor estava vestida para a ocasião e a que mais continha brilhantes em si. Apesar do colo nu.



Escrito por A. às 23:30
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Alyuska Lins, uma certa mocinha do recife.

repleta de jazz, drummond, kundera, coltrane, nietzsche, tchaikovsky, paisagens, lispector, adélia, miguel, lisa simpson, violinos, beatles, guyton, leminski, cinema francês, luiz, tango, kafka, chopin, ardis, surrealismo, silogismos, paixões, niilismos, Deus, parênteses, entrelinhas, rios, ruas, los hermanos, zéfiros, saramago, billie holiday, olinda, hai cai, relativismos, modiglianis, cecília, balalaicas, chuva, strauss, brinquedos, passarinhos, monolitos, zemeckis, eça, metáforas, orvalhos, nuanças, sorrisos, sophia, cachorros, didactismos, jardins, pactos, palavras, voz.


.: abertura de conta :.

andei um pouco ausente nestes mares sem deuses nesta vida, a internet sem fins construtivos, em tempo de perder o fenômeno blogs e outras mumunhas mais do gênero. volto um tanto quanto surpresa e acho que aquela velha máxima do não fale de boca cheia nem de mente vazia nunca foi tão esnobada, afinal nem todo inútil deve ser prontamente descartado. ele pode antes ser lido.

só que em meio a um grito tão vasto chega a ser tentador e até confortável balbuciar alguns poucos despautérios, ainda que só a mim convençam. leminski chegou a comentar, em cartas, a idade com que morreria, sugerindo fortuito uma causa. era um impressionista até post-mortem, já que profeta. também disse que a vida hoje em dia era crônica. no sentido mais amplo da palavra, acertara mais uma vez? segue, pois, minha bagatela.


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