ando por esses dias um tanto mística. crendo sem ver na força das coisas se têm de ser no desenrolar infalível dos fatos se é destino já não duvido da obstinação dos caminhos das retificações à última hora creio mesmo que nos assiste um Deus nem sempre fácil mas legítimo.
a espera deu-me estes ares, tornei-me uma inacreditável espiritualista. e ainda que seja risível esta minha auréola crente a qualquer um que me tenha visto antes, cepticamente desconcertante, a calcular probabilidades na teoria do caos, converti-me nesta otimista irreparável que conhece hoje de santos e rosários traz joelhos calejados e crê que ao final todo bem prevalece.
porque a espera é desoladora. se ao menos houvesse algo a ser feito paliar os dias com filas de bancos e taxas de cartório em lugar do adiamento desmedido, do silêncio das noites sem notícia se possível ainda fosse dormir e suportar um outro dia para novamente nada fazer, nenhuma minúncia sequer a providenciar mas acordar tão somente para esperar aguardar ainda como se sequer ansiasse o aviso, o prenúncio, a promessa, disfarçar do destino o limite em que se encontram vísceras e pensamentos que toda vontade é dar de ombros, chutar o balde, também agora não quero mais.
vem todavia, lá pela metade do dia, uma fé que não se explica e acalenta o espírito, consola-o, afaga-lhe as idéias e os medos. põe-me no colo, sussura favores, suscita o lado bom até então ignorado do que se adia. como não sei de onde venha e a que se dá o trabalho de encorajar meus dias suponho seja Deus esta fé e seja bom, porque me sustenta, quando ameaço resvalar. daí a crença, daí os novos ares que assumo. pode ser só um lado otimista aflorando, o tempo me tornou mais amável, apenas isso. mas na dúvida, creio. é mais alentador.
o coração sonhou sonhou redudante desfecho e inferências, a trajetória mirabolante. conjecturou, elaborou, pormenorizou a convincente história de final feliz e ponto final.
quarenta noites de espera e ingenuidade novecentas e sessenta horas de credo de risos soltos sem motivo nos semáforos.
chegado o dia coração desatou num galopar desatinado mal se continha por dentro do peito parecia, queria saltá-lo, superá-lo em força, em controverso prodígio. a voz cortaria se tentado fosse discorrer sobre algo sobre a fatalidade dos destinos sobre o próposito afinal de tudo sobre a felicidade sobretudo
mas não houve tempo de dizê-lo não houve um só enredo nem real nem o circense era só a madrugada e uma lua meio crescente. o coração olhando-a do alto de sua própria dor insuportável.
coração então desistiu de músculos e veias, de pareceres favoráveis. consentiu ignorar hormônios e polaridades elétricas. coração hoje é pedra de ladrilhar.
São poucas horas para novamente o sol e eu me encontro em silêncio a depurar coisas e desenredos. Não posso dizer que lapsos de sorriso não me venham a cada fim de pensamento em que tudo se dá por uma ou outra maneira cada vez mais elaborada e improvável, estou por assim dizer a meio passo de uma felicidade lacinante. Assevero o quanto custará tamanho devaneio deixar-me levar por sonho e arroubos de sorte, mas não há severidade alguma nem pesar ao se considerar a loucura a que tudo se resume e que estou prestes a atrelar aos meus dias. O que estou é uma pobre alma desatada ante uma realidade com ares de céu, nuvens baixas por uma estrada branca e infinita flores do campo de cores impossíveis de ambos os lados um amor para andar de mãos dadas, música imperiosa na entrada, e uma alegria que faz chorar.
O sol há de vir a pouco com respostas e o desenrolar do filme em pausa. Devo confessar que não é humano esquivar-se da vida, Com seus fogos e pedras e vales e ilhas.
descobri hoje que amargura não é uma espécie de verminose que acomete mulheres que não casam. aquela expressão acre, as vestes pudicas, o olhar subliminar delas é outra coisa. amargura é uma dor silenciada. um perdão diplomaticamente dado, intragável porém. os hebreus chamam-na planta amarga capaz de estragar e contaminar a massa inteira. assisti a meus modos tornarem-se caprichosos, ranzinzas. já não me alegravam os lençóis limpos de antes. as pessoas eram enfadonhas. olhava-as com uma das sobrancelhas sempre arqueadas, inesperáveis que são os seres humanos. como quem já não se importa, dispensei simpatias, cultivei quezilas, ampliei minha lista de hostilidades. dei de ombros. e era só amargura.
sempre achei que moça abandonada virava bruxa. praguejava dor de barriga, todo sábado, e o namorado padecia, sem encontrar substituta. durava a maldição até aquela terceira semana em que todo mundo a si mesmo engana e já pensa no que fez com os olhos olhando o chão.
eis que chega o tempo do perdão da sensatez, com conversa aberta. é a hora e a vez da mandinga: havendo o reencontro a volta é certa.
como dormir nesta noite imensa em que trazes no peito o segredo lacinante como esquecer o lapso irredimível que por tua força ou omissão fez-se ou não se fará nunca e a ti restou o tormento inadiável esta fogueira no peito, o remorso?
como confessar o mal feito o bem negado como calar a verdade latejante que ameaça saltar à voz e deixar nu à vista de todos o lado que trazemos oculto por sob capuzes e sombras?
como redimir-se quando já não é possível a outra chance como disfarçar o desejo sufocante de nada ser ainda e de novo e acertado fazer o que te cabia não fazer o que nem o infante faria?
como explicar a falta do intento o peito contrito como dizer agora do amor? e desejar injúrias, torturas, o mais cruento padecer físico que se saber imperdoável como a si próprio perdoar?
a noite cái como um peso sobre os ombros o silêncio é imenso e se deseja uma voz qualquer que diga ao menos o que sequer se quer ouvir. que por tua máxima culpa carrregarás a noite e seu peso dentro do peito até que aurora não venha mais.
leminski sempre foi em mim seis taças de vinho. separa as coisas como deveriam ser das coisas como são. depois dele toda palavra é dúbia a distância menor é curva cada laço, cada passo o verdadeiro cadafalso.
porque quando leminski faz efeito as coisas perdem sentido é alegre e leve o jeito feito propriamente do dito tudo feito do nada nada, antes tudo, agora pó e por dentro da garganta da gente leminski põe e desata um nó.
rir então é urgente quase sempre, tangente. súbito, lapso, girândola a poesia por ele fala, quase anda roda, roda, quase hai cai.
A festa já havia começado, quando ele chegou. Os amigos haviam combinado às dez em ponto, mas ele dera meia hora de atraso para que se criasse a já comum expectativa em torno de sua vinda. Ele viria ou não afinal? - pensariam. E a festa estava boa. Coltrane rolando, velhos amigos reunidos, garotas bonitas conversando e rindo, fingindo não notarem os rapazes que também riam e conversavam. Para o grupo mais descontraído do local, ele contava a última do papagaio poliglota e se sentia orgulhoso quando ouvia à sua volta a unânime gargalhada dos amigos por causa de suas histórias. Definitivamente ele sabia contar piadas. Tinha o poder de se transformar em karatê kid naquela pose histórica de águia perneta e logo depois se entregar a jetées, fingindo-se um bailarino famoso. E quando era a história do louco, assanhava os próprios cabelos e fazia o olhar típico que ninguém agüentava olhar por dois segundos sem rir. Era o que sabia fazer. Alguns, em festa, pedem o microfone e cantam “sozinho” do Caetano; outros, põem-se à janela e fazem o tipo deslocado. Alguns, entretanto, são populares. É o jeito que encontram de divertir os outros e chamar atenção, embora nem sempre esta última seja razão para a primeira. O dia seguinte ao da festa era uma sexta, no entanto, a maioria das pessoas iria trabalhar, e não era nem meia-noite quando ele percebeu que quase todos que conhecia já haviam ido embora. Até pensou em ir também, mas, ao olhar em volta, um belo par de olhos azuis próximo ao bar acabou dando-lhe uma boa razão para ficar. E além dos olhos, o corpo. Típico daquelas grandes paragens que todo homem sonha visitar um dia. Ele resolveu então se aproximar e começou a atravessar a sala nessa intenção. Antes, parou um garçom, trocou o copo já vazio por outro com o qual pudesse brindar a possibilidade de estar diante de uma daquelas grandes noites. Desviou de um casal que dançava, disse “depois” a um conhecido que o interceptou no caminho para perguntar-lhe algo, desviou de uma garota baixinha que dançava só, mas ela foi para o mesmo lado. Desviou novamente, ela também. Sugeriu outros desvios, mas ela em todas as tentativas ia também para o mesmo lado. Ele, então, de sobrancelhas contraídas, visivelmente contrariado, já pensando em afastá-la de seu caminho com um dos braços, notou de repente a bela de olhos azuis passar ao seu lado. Ficou absorto, encantado, já entregue de paixão até que ouviu sem querer ela comentar com as amigas algo sobre preferir os coroas, porque eram mais carentes e pagavam à vista. Ele a acompanhou com os olhos, incrédulo, até vê-la entrar no toalete... Balançou a cabeça, mal podia acreditar. Pôs-se, então, a fazer uma rápida reflexão sobre a inexistência de mulheres de verdade no mundo e já pensava em ir embora quando viu à sua frente a garota baixinha que há alguns instantes ele, impaciente, quase empurrara. E ao olhar para ela, pensava algo como "se não é piranha, é isto", quando a moça de repente falou: - Há alguns minutos pensei que você estivesse tentando dançar comigo... - e sorriu. Um sorriso até bonito. Um sorriso diferente. E ele, talvez, até estivesse prestes a falar-lhe alguma frase desaforada, mas achou o comentário tão sutil e bem-humorado que sorriu também. - E logo agora, que eu já estava até pegando o passo... tudo bem que você parecia meio bobo, dançando de um lado para outro como quem tenta desviar de uma garota baixinha que se põe sem querer em seu caminho, mas tudo bem... afinal o que pode uma garota baixinha esperar de uma festa com tantas garotas bonitas e tantos olhos azuis, não é mesmo? A essa altura ele já estava com a boca visivelmente aberta e os olhos espantados, como de quem pensa "ela fala". - O que foi? - perguntou ela a sorrir... com o riso novamente bonito, aquele riso diferente que ele nunca tinha visto - Não sabia que eu falava? Os olhos dele chegaram, então, ao limite máximo de abertura da órbita. - Meu consolo, entretanto, para festas com essas, é acreditar em Stendhal: mulheres muitíssimo belas surpreendem menos no dia seguinte... - ela acrescentou. - Stendhal? Bom, citando-o agora você certamente já está me surpreendendo o suficiente para que haja um dia seguinte... Gosta de ler, ao que vejo. - Só nas noites sem fogueiras... - falou ela, sorrindo. Definitivamente aquela garota não era comum. A festa ainda rolava e ele foi se deixando ficar, ouvindo algumas histórias engraçadas, divertindo-se com o modo engraçado que ela contava e, de repente, quando percebeu, já estavam dançando. Ao ritmo da música e das palavras. - Quer beber alguma coisa? - ele sugeriu. - Só se a bebida for apenas um pretexto. Uma hora de conversa e ela já se tornara uma outra mulher. Não aquela que se impusera em seu caminho e causara-lhe tanto enfado que nem para seu rosto ele havia olhado. O rosto dela agora tinha olhos. Olhos expressivos e sobrancelhas marcantes. E dele despontavam um nariz de sutil atrevimento e uma boca que escondia um sorriso diferente. Já não parecia tão baixa, é verdade. E pronunciava o nome dele sempre como se fosse algo inédito. Não havia nela nada falso. O rosto sem maquiagem revelava uma mulher ao natural. Ele podia até imaginar como ela ficaria bem de batom escuro e os olhos delineados. Imaginou um colar de brilhantes naquele colo alvo, tão nu de acessórios. E ela, como se adivinhasse seus pensamentos, até chegou a comentar a razão de sua opção pelo mais simples: - Uma mulher bem vestida é aquela em cuja roupa ninguém repara - ela ouvira certa vez. E ele ao ouvi-la dizer isso, sorriu de um jeito diferente. Sorriram iguais, pela primeira vez. Ele, profundamente encantado. E enquanto ela falava, ele não pôde deixar de constatar que, sem querer, estava diante da mulher mais bela daquela festa. Ela sim, era a que melhor estava vestida para a ocasião e a que mais continha brilhantes em si. Apesar do colo nu.
andei um pouco ausente nestes mares sem deuses nesta vida, a internet sem fins construtivos, em tempo de perder o fenômeno blogs e outras mumunhas mais do gênero. volto um tanto quanto surpresa e acho que aquela velha máxima do não fale de boca cheia nem de mente vazia nunca foi tão esnobada, afinal nem todo inútil deve ser prontamente descartado. ele pode antes ser lido.
só que em meio a um grito tão vasto chega a ser tentador e até confortável balbuciar alguns poucos despautérios, ainda que só a mim convençam. leminski chegou a comentar, em cartas, a idade com que morreria, sugerindo fortuito uma causa. era um impressionista até post-mortem, já que profeta. também disse que a vida hoje em dia era crônica. no sentido mais amplo da palavra, acertara mais uma vez? segue, pois, minha bagatela.